As recomendações resultantes da Conferência Internacional sobre o Ensino do Português, realizada no Centro Cultural de Belém, em Lisboa, de 7 a 9 de Maio, foram elaboradas pelo comissário da conferência, Carlos Reis, e desdobram-se em sete tópicos.
O Português como língua de conhecimento
Com a noção de que o idioma é um factor determinante para a aquisição de conhecimentos, de representação de conceitos e de comunicação de saberes, importa sensibilizar e responsabilizar todos os professores, independentemente da sua área disciplinar, no sentido de cultivarem uma relação com a língua norteada pelo rigor e pela exigência de correcção linguística.
Este critério de rigor e de exigência deve ser instituído no momento da formação dos professores, tornando-se um crivo importante da sua avaliação e acreditação.
O problema do erro
Contrariando uma atitude pedagógica permissiva para com o erro, cultivada nos últimos anos, é fundamental que o ensino da língua considere o erro como efectiva transgressão de um sistema linguístico que tem regras.
Assim, o professor de Português (e, com ele, os professores de todas as outras disciplinas) deve encarar o erro como erro, alertando para a sua ocorrência e desincentivando a sua prática.
Uma nova interdisciplinaridade
No âmbito da controvérsia quanto à relação entre ensino da literatura e ensino da língua, recomenda-se a integração dos textos literários no ensino da língua, em função do seu potencial de criatividade, de inovação e de singularidade linguística.
Ao professor de Português deve exigir-se uma cultura literária significativa, que fomente no aluno a descoberta da diferença estética que os textos literários cultivam, não bastando, para tal, fazer apelo a autores supostamente mais “acessíveis”.
A questão da gramática
Tendo-se privilegiado uma concepção do ensino da língua que valorizou a sua dimensão comunicativa, em detrimento da sua dimensão normativa e da sua gramaticalidade, alerta-se para a importância da reintrodução da gramática na aprendizagem da língua.
Assim, na aula de Português, deve ser instituído ou reforçado o ensino da gramática, privilegiando-se uma gramática normativa, como ponto de partida para a revalorização da gramaticalidade de idioma.
Para o efeito, torna-se necessário que a formação de professores, tanto a inicial como a contínua, insista neste aspecto.
Multilinguismo nas escolas
As mutações socioeconómicas verificadas nos últimos anos contribuíram para a criação de comunidades de imigrantes com diversas proveniências, determinando o aparecimento de populações escolares multiculturais e multilingues.
No sentido de lidar com esta problemática, deverá ser transferida para as escolas a reflexão científica produzida, em articulação com as universidades em que esta temática é objecto de estudo, com as eventuais respostas operativas fundamentadas nesse reflexão.
Por outro lado, considera-se fundamental fomentar programas de integração linguística das comunidades imigrantes, sensibilizando-as para a conveniência dessa integração, como factor facilitador de uma melhor integração social.
Questão da leitura
Tendo presente que os textos verbais e a sua leitura já não detêm o exclusivo do acesso à informação, o estímulo e as práticas de leitura, no sentido convencional do termo, devem conviver com a aprendizagem da chamada literacia informacional.
Neste contexto, o contacto orientado e criterioso com outras linguagens e técnicas de informação e comunicação (não necessariamente na aula de Português), poderá coexistir com a criação ou o reforço de práticas e de comunidades de leitura, que pressuponham um espaço e um tempo próprios para a leitura, com a concentração, o trabalho de memória e o esforço que esta tarefa requer.
Identidade do professor de Português
Com a consciência de que sem professores de Português motivados e empenhados nenhuma das recomendações anteriores faz sentido, preconiza-se o repensar da identidade do professor desta disciplina, tanto no que diz respeito à formação inicial como à profissional.
Recomenda-se, igualmente, que o professor de Português faça incidir a atenção na sua cultura literária e linguística, bem como no conhecimento da língua, da sua evolução e das suas regras sistémicas, devendo ser acompanhado nesse processo através de actividades de formação complementares.